essa pedra no meio do caminho
se não fosse pela fadiga
se não fosse pela fadiga
eu chegaria ao outro lado dela
eu chegaria ao outro lado dela
através de um túnel
através de um túnel
esculpido
(inventado)
com a minha própria língua
viola
com sotaque ribanceiro desde
as pontas dos dedos rumino
um céu estrelado alma adentro
sanfona
valso inebrio-me a alma
de repente
vem habitar sobre a pele
aleluia
ao pôr-da-tarde cheiro de chuva
vestida para a eucaristia a menina
caça aladas tanajuras
goiabeira
vidraça quebrada o estilingue preso
num galho e o cheiro em fuga são
indícios de um assalto
infância (fim da)
da mão precária
o vento desata o
catavento que (devagar) (rápido) se evade
álbum
a sépia salienta
a nódoa (lembrança dor
ou delícia) que lateja
função
tal um catavento afere alegre o labor do vento
a poesia
afere os meios-instantes os meios-gestos
poeta (razão de ser)
pasto espinhaços
rumino cernes desidratados talvez
uma flor inefável nasça
poetave II
não me dói não ser pássaro
contanto que o céu esteja sempre rente
ao solo quente em que semeio meus passos
adão
tão
tênue sutil
sopro (por dentro do bruto barro)
eva
a carne é mera
via
para que o desejo voe
papel de arroz
inscrita na pedra a nudez
ah a nudez plena inscrita até
na pele (do avesso)
revoada
não deixa
rastros no céu poente o
canto migratório
descalço
haverá pétalas? por enquanto
esse
caminho de pedras
retirante
ambulante textura árida tatuagem de
árduo sol nos olhos
ele um náufrago ao avesso
flores ásperas
nas mãos da noiva
a espera (estéril)
sangra
janela
aberta
a cortina ao vento aprende a ter
a leveza de um riacho com asas
matéria
basta um resvalo
da cortina embebida em vento
para que o vaso não mais seja
travessia
ficar devagar coisa tal
cantiga entoada
por folha seca à brisa
renovação
folha caída no riacho
descubro um súbito destino
de barco para a travessia de formigas
O anjo
Perdeu-se de seu bando numa revoada vespertina. Então, perambulou ocioso por campos, revivendo carcaças, desviando enchentes dos vilarejos, curando a peste do gado e a febre da lavoura, até chegar à cidade. Entretato, só as crianças ainda sem batismo o viam. E ele, em dialeto de bicho de pelúcia, lhes falava de coisas que ainda não tinham nome. Passou a habitar empoleirado no ombro de uma menina cega. Quando ninguém estava olhando, o anjo interrompia sua cegueira, e a menininha, disfarçadamente deslumbrada, podia ver até através das pessoas.
Robert e Shana Parkeharrisonceramista
para Assis Freitas
arquitetura de fraturas – mãos
brutas modulam um caos conciso
: sabem borboletamente
metrificar silên
cios desentrelinhar
afetos apaziguar
o cio corrosivo
de um escafandro no deserto
me pensam com moringa me penso
com cuspe: coo
o brejo até ao ponto de potável – mas
minha água ainda é crua
e a gasto com tanta inútil
sede
boi poeta polícia só
sei ser – sei ser? –
pasto para rapina
chão para procissão
e me esmerilho me rio tão rio tal o rio
cujo barro sonha ser nunca ruínas
se me de repente estendes
uma dessas tuas
canecas de café-com-(de)leite
do berçário poético
inda menino me catavento
onde o relógio não me faz sombra
onde o espelho não me faz silêncio
noturno
no quarto escuro, a escureza
salienta
o silêncio
saudosismo
um trem de ferro vai para
os longes vai para a
fábula vai para sempre
poesia
multicolorir os ceróis, os sóis cruéis
me põe a salvo? me põe como que
um algo sedado: isso me basta?
procura
uma sempiterna lamparina!
que me alveje toda ilusão de treva
que me desnoturne toda cegueira adquirida
por ofício
minha viola, minha sanfona ensaiam
algum relento que dê alguma
asfixia ao revólver
docilidade
minha avó uma só singeleza
: mal sabem que já matou
um seu estuprador nos dentes
feitiço de ninar
chegaste bem perto, mas em
matéria de sussurro
: “tenho e te trago quentume
mas é torta a via para fora da ribanceira
– preferes desertos, brejos ou labirintos?”
antes, só me havia
carícia de vespa na virilha
: “vê a nudez translúcida que me adeja
nas entrelinhas do vestido”
antes de ser, na tua boca, canto
parece que meu nome não tinha
sido pronunciado ainda
– eu só podia instrumentais preces –
o céu da infância
caminhava-me por dentro
: “para pelúcia alguma, nunca
mais tive prumo
depois que me obturaste
toda ausência”

Acaba de sair a nova edição da revista Zunái, Ano VI – Edição XXII – Abril de 2011, comandada pelo grande poeta, ensaísta, tradutor e crítico Cláudio Daniel, uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea (quiçá de todos os tempos!) brasileira.
Devido à generosidade do Cláudio, a Zunái, nesta edição, conta com alguns de meus poemas. Confiram a revista, vale muito! http://www.revistazunai.com/; para ir direto para os meus poemas: http://www.revistazunai.com/poemas/wilson_nanini.htm
Confiram também o blog do Cláudio Daniel, http://cantarapeledelontra.blogspot.com/
Um forte abraço a todos!

pássaro
eu era um pássaro muito
pouco
para em céu tanto exercer
meu poder de voo
e meu dever de canto
havia a premissa do raso
e minhas ineptas asas poderiam
não me conferir suficiente fôlego
para transpor o automuro interno
meu canto mais amplo ainda me é puro
instrumental silêncio
– o que agora me faz um poeta muito
tolo
para em tanto deserto/brejo ou céu avesso exercer
meu poder de gozo
e meu dever de fogo
Num gesto de apurada generosidade, o editor do Portal Cronópios, Pipol, fez publicar alguns de meus poemas por lá. Para quem quiser conferir (não só os poemas deste humilde poeta mineiro que vos fala, mas também) a poética de diversos nomes da atual safra da poesia nacional – alguns ainda em estado de lavoura – segue o link: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4861
Abraços a todos!
interferência urbana
na periferia do ouro,
doenças secretárias e hospícios
disfarçados de circo
obstetras de contêineres
expõem o lixo público
já que o alambrado burocrático
cerceia o pomar alado
grafiteiros altruístas revitalizam
bu_tas sanitárias
terroristas do fim-da-treva
(pós-adolescentes ébrios) _jam
nos postes _blicos eléticos
tangem o metrô à ribanceira
encapuzam estátuas tentam des-
censurar letras sílabas palavras frases
“sonha-se um mundo sem necrose”
mas nós tão ingênuos como
mendigos com os olhos em brasa
zelando zoológicos de bichos de pelúcia
Segue abaixo o endereço do blog "Pensamentos e outras letras...", do jornalista botelhense Pedro Cunha, que taz um aceno sobre minha poesia.
Abraços a todos!
Pensamentos e outras letras... - http://pensamentoseoutrasletras.blogspot.com/