segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Drummond me desrimbaudiou

cda (reinterpretado)

essa pedra no meio do caminho
essa pedra no meio do caminho
se não fosse pela fadiga
se não fosse pela fadiga
eu chegaria ao outro lado dela
eu chegaria ao outro lado dela
através de um túnel
através de um túnel
esculpido
(inventado)
com a minha própria língua

Para Mirze Souza

Fotografia: Kelvin Carter

social

às vezes, bem no meio da meia-
noite doce e bárbara do orgasmo,
pousa, sem cheiro, sem canto,
uma ave negra no âmago
: atravessa-me o cerne uma
lembrança canhota,
que me põe poeta
e, então, me ocupo
de toda ausência e dor do mundo

às vezes, em meio à meia-
febre álacre e explosiva da festa
– vaidade das vaidades –
fico sem nudez, sem riso,
e um silêncio pétreo feito de
cânticos endurecidos me grita
áfricas e nordestes,
orfanatos e asilos
: uma vontade como a de uma
serra leoa de devorar os eua
e a de uma capelinha de roça
de engolir catedrais vaticanas

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para Nydia Bonetti

Sompob Sasimit

viola

com sotaque ribanceiro desde

as pontas dos dedos rumino

um céu estrelado alma adentro


sanfona

valso inebrio-me a alma

de repente

vem habitar sobre a pele


aleluia

ao pôr-da-tarde cheiro de chuva

vestida para a eucaristia a menina

caça aladas tanajuras


goiabeira

vidraça quebrada o estilingue preso

num galho e o cheiro em fuga são

indícios de um assalto


infância (fim da)

da mão precária

o vento desata o

catavento que (devagar) (rápido) se evade


álbum

a sépia salienta

a nódoa (lembrança dor

ou delícia) que lateja


função

tal um catavento afere alegre o labor do vento

a poesia

afere os meios-instantes os meios-gestos


poeta (razão de ser)

pasto espinhaços

rumino cernes desidratados talvez

uma flor inefável nasça


poetave II

não me dói não ser pássaro

contanto que o céu esteja sempre rente

ao solo quente em que semeio meus passos


adão

tão

tênue sutil

sopro (por dentro do bruto barro)


eva

a carne é mera

via

para que o desejo voe


papel de arroz

inscrita na pedra a nudez

ah a nudez plena inscrita até

na pele (do avesso)


revoada

não deixa

rastros no céu poente o

canto migratório


descalço

haverá pétalas? por enquanto

esse

caminho de pedras


retirante

ambulante textura árida tatuagem de

árduo sol nos olhos

ele um náufrago ao avesso


flores ásperas

nas mãos da noiva

a espera (estéril)

sangra


janela

aberta

a cortina ao vento aprende a ter

a leveza de um riacho com asas


matéria

basta um resvalo

da cortina embebida em vento

para que o vaso não mais seja


travessia

ficar devagar coisa tal

cantiga entoada

por folha seca à brisa


renovação

folha caída no riacho

descubro um súbito destino

de barco para a travessia de formigas

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

vidas em singeleza II

O anjo

Perdeu-se de seu bando numa revoada vespertina. Então, perambulou ocioso por campos, revivendo carcaças, desviando enchentes dos vilarejos, curando a peste do gado e a febre da lavoura, até chegar à cidade. Entretato, só as crianças ainda sem batismo o viam. E ele, em dialeto de bicho de pelúcia, lhes falava de coisas que ainda não tinham nome. Passou a habitar empoleirado no ombro de uma menina cega. Quando ninguém estava olhando, o anjo interrompia sua cegueira, e a menininha, disfarçadamente deslumbrada, podia ver até através das pessoas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Oficina para purificar sedes artesianas

Robert e Shana Parkeharrison

ceramista

para Assis Freitas


arquitetura de fraturas – mãos

brutas modulam um caos conciso

: sabem borboletamente

metrificar silên

cios desentrelinhar

afetos apaziguar

o cio corrosivo

de um escafandro no deserto


me pensam com moringa me penso

com cuspe: coo

o brejo até ao ponto de potável – mas

minha água ainda é crua

e a gasto com tanta inútil

sede


boi poeta polícia só

sei ser – sei ser? –

pasto para rapina

chão para procissão


e me esmerilho me rio tão rio tal o rio

cujo barro sonha ser nunca ruínas

se me de repente estendes

uma dessas tuas

canecas de café-com-(de)leite




quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Um buquê, uma árvore florida para vós


porque tens
hálito de brejo e eu tenho o
paladar ribanceiro,
damo-nos bem certos
de o querer nos ser panaceia

: amor é pomar plantado
à beira do desfiladeiro

porque sinto sincera pena
de que tu temas os ipês
cuja fertilidade
sabota tuas narinas,
tirei esta foto inócua deles para ti

porque entoamos cânticos
de febres pretéritas
e de fomes sem cura

aferimos nosso poder
de resistir à dor
e de mergulhar na delícia

e nossa ventura de cunhar frases de efeito
: teu olhar me lamparina
: “teu ofego morno me deixa quebradiça”

: amor é sede e moringa
a um só tempo

: amor é o tempo imperecível




sábado, 25 de junho de 2011

enxertos

do berçário poético

inda menino me catavento

onde o relógio não me faz sombra

onde o espelho não me faz silêncio


noturno

no quarto escuro, a escureza

salienta

o silêncio


saudosismo

um trem de ferro vai para

os longes vai para a

fábula vai para sempre


poesia

multicolorir os ceróis, os sóis cruéis

me põe a salvo? me põe como que

um algo sedado: isso me basta?


procura

uma sempiterna lamparina!

que me alveje toda ilusão de treva

que me desnoturne toda cegueira adquirida


por ofício

minha viola, minha sanfona ensaiam

algum relento que dê alguma

asfixia ao revólver


docilidade

minha avó uma só singeleza

: mal sabem que já matou

um seu estuprador nos dentes

terça-feira, 3 de maio de 2011

peço-vos licença para cantar amor a uma aniversariante, uma parte minha que vive fora de mim


feitiço de ninar


chegaste bem perto, mas em

matéria de sussurro


: “tenho e te trago quentume

mas é torta a via para fora da ribanceira

– preferes desertos, brejos ou labirintos?”


antes, só me havia

carícia de vespa na virilha

: “vê a nudez translúcida que me adeja

nas entrelinhas do vestido”


antes de ser, na tua boca, canto

parece que meu nome não tinha

sido pronunciado ainda


– eu só podia instrumentais preces –


o céu da infância

caminhava-me por dentro


: “para pelúcia alguma, nunca

mais tive prumo

depois que me obturaste

toda ausência”

sexta-feira, 29 de abril de 2011

boneca de pano, soldado de chumbo

a noiva


ela: a

fetuosa para co’ os

urubus que lhe

unham os cataventos


baila borboleta-

mente

ora

no cerne de um intempérie

ora

sobre a pele de uma

lâmpada acesa


vai-se às núpcias – sua

lingerie:

um escafandro

sábado, 23 de abril de 2011

Uma valsa entre roseiras


primeiro amor

eu adolescido
inepto
?
ou tinha o dedo podre

era fio elétrico na uretra
o meu anelo

e você foi beeeemmmm
capitu comigo

por isso,
quando me lembro,
acode-me billie holiday
ao relento de um vinho tinto

e a noite que trago dentro
dilata-se mais um pouquinho

segunda-feira, 18 de abril de 2011

REVISTA ZUNÁI




Acaba de sair a nova edição da revista Zunái, Ano VI – Edição XXII – Abril de 2011, comandada pelo grande poeta, ensaísta, tradutor e crítico Cláudio Daniel, uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea (quiçá de todos os tempos!) brasileira.

Devido à generosidade do Cláudio, a Zunái, nesta edição, conta com alguns de meus poemas. Confiram a revista, vale muito! http://www.revistazunai.com/; para ir direto para os meus poemas: http://www.revistazunai.com/poemas/wilson_nanini.htm

Confiram também o blog do Cláudio Daniel, http://cantarapeledelontra.blogspot.com/

Um forte abraço a todos!

sábado, 16 de abril de 2011

vidas em singeleza


O mendigo


Hospedassem-no, por uma noite, em casa, pela manhã, concedia um deleite à família: a pessoa mais jovem da casa tocava em sua testa e o que tocasse logo após viraria ouro. Um menino transformou em estátua áurea o irmão mais velho. Uma adolescente dançou nua na chuva e escorreu do céu uma enxurrada de ouro líquido. Uma minha prima recém-nascida apenas apontou o dedo para uma revoada de pássaros ao pôr-do-sol. E, então, amanheceu, na mesma hora, o dia do seu aniversário de quinze anos. Mas isso já era outro tipo de milagre.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Fornada


Enquanto as coisas por aqui andam meio lerdas - já que estou pondo ponto final ao meu livro para o remeter ao léu em busca de uma editora que tenha coragem de publicá-lo - convido a todos para irem até o Tertúlia (http://tertuliapaodequeijo.blogspot.com/) comer um pão de queijo da minha fornada, sempre às quartas.
Espero vocês por lá!
Forte abraço! E tudo de bom!!!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

“Gosto de pensar (...)/ vendo a cidade fugir/pelo espelho retrovisor.” Ana Martins Marques, em A Vida Submarina, Livraria e Editora Scriptum

Aquino José

pássaro

eu era um pássaro muito
pouco
para em céu tanto exercer
meu poder de voo
e meu dever de canto

havia a premissa do raso
e minhas ineptas asas poderiam
não me conferir suficiente fôlego
para transpor o automuro interno

meu canto mais amplo ainda me é puro
instrumental silêncio

– o que agora me faz um poeta muito
tolo
para em tanto deserto/brejo ou céu avesso exercer
meu poder de gozo
e meu dever de fogo


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sinos de mim

Duy Huynh (artista viatnamita contemporâneo)

Num gesto de apurada generosidade, o editor do Portal Cronópios, Pipol, fez publicar alguns de meus poemas por lá. Para quem quiser conferir (não só os poemas deste humilde poeta mineiro que vos fala, mas também) a poética de diversos nomes da atual safra da poesia nacional – alguns ainda em estado de lavoura – segue o link: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4861

Abraços a todos!


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sabotagem

intervenção: 6emeia

interferência urbana

na periferia do ouro,
doenças secretárias e hospícios
disfarçados de circo

obstetras de contêineres
expõem o lixo público

já que o alambrado burocrático
cerceia o pomar alado

grafiteiros altruístas revitalizam
bu_tas sanitárias

terroristas do fim-da-treva
(pós-adolescentes ébrios) _jam
nos postes _blicos eléticos

tangem o metrô à ribanceira
encapuzam estátuas tentam des-
censurar letras sílabas palavras frases

“sonha-se um mundo sem necrose”

mas nós tão ingênuos como
mendigos com os olhos em brasa
zelando zoológicos de bichos de pelúcia


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um aceno

Foto: Pedro Cunha

Segue abaixo o endereço do blog "Pensamentos e outras letras...", do jornalista botelhense Pedro Cunha, que taz um aceno sobre minha poesia.

Abraços a todos!

Pensamentos e outras letras... - http://pensamentoseoutrasletras.blogspot.com/