sábado, 25 de junho de 2011

enxertos

do berçário poético

inda menino me catavento

onde o relógio não me faz sombra

onde o espelho não me faz silêncio


noturno

no quarto escuro, a escureza

salienta

o silêncio


saudosismo

um trem de ferro vai para

os longes vai para a

fábula vai para sempre


poesia

multicolorir os ceróis, os sóis cruéis

me põe a salvo? me põe como que

um algo sedado: isso me basta?


procura

uma sempiterna lamparina!

que me alveje toda ilusão de treva

que me desnoturne toda cegueira adquirida


por ofício

minha viola, minha sanfona ensaiam

algum relento que dê alguma

asfixia ao revólver


docilidade

minha avó uma só singeleza

: mal sabem que já matou

um seu estuprador nos dentes

terça-feira, 3 de maio de 2011

peço-vos licença para cantar amor a uma aniversariante, uma parte minha que vive fora de mim


feitiço de ninar


chegaste bem perto, mas em

matéria de sussurro


: “tenho e te trago quentume

mas é torta a via para fora da ribanceira

– preferes desertos, brejos ou labirintos?”


antes, só me havia

carícia de vespa na virilha

: “vê a nudez translúcida que me adeja

nas entrelinhas do vestido”


antes de ser, na tua boca, canto

parece que meu nome não tinha

sido pronunciado ainda


– eu só podia instrumentais preces –


o céu da infância

caminhava-me por dentro


: “para pelúcia alguma, nunca

mais tive prumo

depois que me obturaste

toda ausência”

sexta-feira, 29 de abril de 2011

boneca de pano, soldado de chumbo

a noiva


ela: a

fetuosa para co’ os

urubus que lhe

unham os cataventos


baila borboleta-

mente

ora

no cerne de um intempérie

ora

sobre a pele de uma

lâmpada acesa


vai-se às núpcias – sua

lingerie:

um escafandro

sábado, 23 de abril de 2011

Uma valsa entre roseiras


primeiro amor

eu adolescido
inepto
?
ou tinha o dedo podre

era fio elétrico na uretra
o meu anelo

e você foi beeeemmmm
capitu comigo

por isso,
quando me lembro,
acode-me billie holiday
ao relento de um vinho tinto

e a noite que trago dentro
dilata-se mais um pouquinho

segunda-feira, 18 de abril de 2011

REVISTA ZUNÁI




Acaba de sair a nova edição da revista Zunái, Ano VI – Edição XXII – Abril de 2011, comandada pelo grande poeta, ensaísta, tradutor e crítico Cláudio Daniel, uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea (quiçá de todos os tempos!) brasileira.

Devido à generosidade do Cláudio, a Zunái, nesta edição, conta com alguns de meus poemas. Confiram a revista, vale muito! http://www.revistazunai.com/; para ir direto para os meus poemas: http://www.revistazunai.com/poemas/wilson_nanini.htm

Confiram também o blog do Cláudio Daniel, http://cantarapeledelontra.blogspot.com/

Um forte abraço a todos!

sábado, 16 de abril de 2011

vidas em singeleza


O mendigo


Hospedassem-no, por uma noite, em casa, pela manhã, concedia um deleite à família: a pessoa mais jovem da casa tocava em sua testa e o que tocasse logo após viraria ouro. Um menino transformou em estátua áurea o irmão mais velho. Uma adolescente dançou nua na chuva e escorreu do céu uma enxurrada de ouro líquido. Uma minha prima recém-nascida apenas apontou o dedo para uma revoada de pássaros ao pôr-do-sol. E, então, amanheceu, na mesma hora, o dia do seu aniversário de quinze anos. Mas isso já era outro tipo de milagre.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Fornada


Enquanto as coisas por aqui andam meio lerdas - já que estou pondo ponto final ao meu livro para o remeter ao léu em busca de uma editora que tenha coragem de publicá-lo - convido a todos para irem até o Tertúlia (http://tertuliapaodequeijo.blogspot.com/) comer um pão de queijo da minha fornada, sempre às quartas.
Espero vocês por lá!
Forte abraço! E tudo de bom!!!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

“Gosto de pensar (...)/ vendo a cidade fugir/pelo espelho retrovisor.” Ana Martins Marques, em A Vida Submarina, Livraria e Editora Scriptum

Aquino José

pássaro

eu era um pássaro muito
pouco
para em céu tanto exercer
meu poder de voo
e meu dever de canto

havia a premissa do raso
e minhas ineptas asas poderiam
não me conferir suficiente fôlego
para transpor o automuro interno

meu canto mais amplo ainda me é puro
instrumental silêncio

– o que agora me faz um poeta muito
tolo
para em tanto deserto/brejo ou céu avesso exercer
meu poder de gozo
e meu dever de fogo


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sinos de mim

Duy Huynh (artista viatnamita contemporâneo)

Num gesto de apurada generosidade, o editor do Portal Cronópios, Pipol, fez publicar alguns de meus poemas por lá. Para quem quiser conferir (não só os poemas deste humilde poeta mineiro que vos fala, mas também) a poética de diversos nomes da atual safra da poesia nacional – alguns ainda em estado de lavoura – segue o link: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4861

Abraços a todos!


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sabotagem

intervenção: 6emeia

interferência urbana

na periferia do ouro,
doenças secretárias e hospícios
disfarçados de circo

obstetras de contêineres
expõem o lixo público

já que o alambrado burocrático
cerceia o pomar alado

grafiteiros altruístas revitalizam
bu_tas sanitárias

terroristas do fim-da-treva
(pós-adolescentes ébrios) _jam
nos postes _blicos eléticos

tangem o metrô à ribanceira
encapuzam estátuas tentam des-
censurar letras sílabas palavras frases

“sonha-se um mundo sem necrose”

mas nós tão ingênuos como
mendigos com os olhos em brasa
zelando zoológicos de bichos de pelúcia


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um aceno

Foto: Pedro Cunha

Segue abaixo o endereço do blog "Pensamentos e outras letras...", do jornalista botelhense Pedro Cunha, que taz um aceno sobre minha poesia.

Abraços a todos!

Pensamentos e outras letras... - http://pensamentoseoutrasletras.blogspot.com/


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As máscaras impostas

poesia
para roberto lima

o dia a noite o tempo
todo tentando fazer esses
penhascos se converterem
em pomares

eu de espelho – aos alheios
olhos – precário

de cerne de borboleta imperecível
: minha égide é de pétala

quis eras seguidas
fazer entrar no berçário repleto
uma voraz alcatéia

mas me chegam em sépia as horas
e me tecem véu de aço
e me cantam cânticos silentes
de sol-me-pôr

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

há fronteiras realmente ou tua asa é muito rasa?

Foto: Haruo Ohara

armadilha
o aço não é suave: translúcida,
a vidraça despedaça o
vôo rápido do pássaro incauto

fatalidade
de repente, a pedra – e a asa não
terá mais
passagem

infantil festim cruel
o pássaro (presa) jaz a-
pedrejado
aos pés solenes

poetave
eu, antes adaga, agora a-
ve para que onde houver fronteira
haja asa

poetave II
passo a catástrofe da passagem
de um a outro instante me indagando:
“derivo de que ave?”


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um olhar na escuridão

Ontem, descobri um dos crimes mais assombrosos. Há um método rude para que o sabiá cante mais: furam-lhe os olhos. Aí, na triste e escura solidão de sua vida, o pássaro lapida e rumina sua partitura inata, a aditiva, e passa a cantar o tempo todo, mais e mais bonito.

Abaixo, eis o depoimento de uma avezinha pungida.


jazz laranjeiro

tudo belo aos olhos de
doce-de-flor-de-laranjeira

n` desjejum não m`alenta
geléia de borboletas

: me álacre era o céu-sol uma
distância de vôo percorrível

ora perambulo em passos-saltos
cúbicos: me tumula me berça
demolição de algazarra de
ciranda incinerada

me queimam me põem
estrepe arame nos olhos

ah há
quem me unte os olhos com bento cuspe?

por via escuríssima meu canto
sai labiríntico rude mas mais belo

: o céu-sol me
foi desaceso
– não me destila o sentir noite ou dia –

canto-peço-rezo
para alguém me devolvê-lo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Instante de confluência



fúrias boas

seu olhar me ronda
animala, mas, flor,
me benta, me pétala

erige em mim canto e febre

amor macio, sem arame,

geme instrumental
e deflagra romãs, açucenas

dança doçuras convulsas

me rio tão maciço macho mas
inda o menino sempre
sem um nunca epitáfio

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Peço-vos licença para expor meu canto


cantilena “madredeus” para carolina amor meu

resvalo de fronteiras manhã
mais noite em festa inédita

invés de coração de ave-
pedra como o que eu
tinha dentro dentro tinhas
helianto já bastante cata-vento

ora (de)cifro o idioma das febres
te cicatrizo vã donzelice
: te ponho alarido algazarra num vãozinho
de gemidos silêncios incomestíveis

vieste – adocicar roseiras tomar
posse dos relentos – ser a plena
moça-alento foto (campo de flores do campo
lavradas alma adentro)

e o lá-lá-lá lá-lá-lá-lá
do balé leve dos matinais desejos de
– dia álacre ou árido dia –
transpor penhascos e poentes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Transitando cego pelo Éden

interferência no tráfego

me moem esses urbanos meninos
perambulantes herdeiros
de candelárias chacinas

com a ferida que sai
do assassino neles
(latrocida besuntado com cola,
benzido com incenso de crack)

– me dói a cor negra dos dentes
dessas rebolantes pré-adolescentes –
outdoor ambulante, propaganda para
padres pastores pais-de-família
(insuspeitos pedófilos)

– me enoja, em mim, o gesto
cada vez mais requerido
de ligar o ar-condicionado
ao parar o carro com os vidros erguidos
nos semáforos fechados

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sem querer ser reacionário, o corpo gasta-se à velocidade de uma vida.

Rachel, 21 anos, encontrada pelos pais, morta por overdose.

Grilo

I

Cantar
escuridões infecundas.
Cantar-se. Roer
a treva
íntima. Roer-se
impiedosamente.

II

Árido, se rói
incisivamente.
Não cintila:
elide alheias
epifa-
nias.

III

O canto não é profundo
e o nome não é maduro:

tenta cavar fuga
arando a matéria
para fora do vidro
da vida escura
que o encerra.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Entrelaces e desconfluências


canção do desvelamento

hoje que me
(des)dê
(des)poesia
: escavarei na palavra
sua rara alegria

no espelho é longínquo
o ente já quase nunca
resmungando distâncias
no fundo da retina
tingida de ferrugem

não sei das faces
se eram estátuas
se derivavam
de alguma ave
: máscaras sempre
burlam a verdade

e a-
pesar do
escuro que
se cumpre em mim

tateio
na cilada do espelho
ainda alguma
estranheza

e danço mínimo
meu gesto possível
entoado
por um gemido
entremeio à alegria

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pedra ilapidável


Turmalina

desgastar o azul até
encravar a
pedra (turmalina)
no metal

cinza

de-
pois ficar
à espreita
à espera
de que a cor
caiba ao teor
da pele

que uma
nudez
aflore

que uma
noite
cante

domingo, 17 de maio de 2009

Um pássaro contra a vidraça

Relâmpago

Racha
a treva celeste
esti
lha
ça elétrico o céu
prestes a desabar-se

revela a
face-fantasma
da menina insone
contemplando
a cidade da vidraça.

Devoto de uma foto

Éden

Descalçadas as vestes
com a pele gritas
um dialeto de jasmim

depois fica o aroma
querendo destroçar relógios
desdilatar distâncias
dessas que deflagram abismos

ferrugem não-potável
dessas que maceram espelhos

sob o encanto,
uma estranheza estremece

um quase-espasmo-
quase-susto sepultaria
os pianos mais áridos

pois memória,
repelente ou apetecível:
sempre alarido
extraviado da sinfonia
de incandescentes lavrados
desertos íntimos

te me ofertas
qual fruta acredoce
deste pomar
dócil-bruto

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Uma lufada de incentivo para minha poesia

No inicio do ano, a poeta Micheliny Verunschk, de cuja poesia sou devoto confesso, num ato de extrema generosidade, publicou no Portal de Literatura e Arte CRONÓPIOS um texto sobre minha poesia. Como não sei nada de divulgação, segue abaixo o endereço do texto para quem quiser conferir. Ainda sobre a poeta Micheliny, a mesma edita o blog http://www.ovelhapop.blogspot.com/ e já escreveu dois livro: Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada, ambos de 2003 (Editora Landy).

Endereço do texto no Cronópios:
http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3743