quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As máscaras impostas

poesia
para roberto lima

o dia a noite o tempo
todo tentando fazer esses
penhascos se converterem
em pomares

eu de espelho – aos alheios
olhos – precário

de cerne de borboleta imperecível
: minha égide é de pétala

quis eras seguidas
fazer entrar no berçário repleto
uma voraz alcatéia

mas me chegam em sépia as horas
e me tecem véu de aço
e me cantam cânticos silentes
de sol-me-pôr

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

há fronteiras realmente ou tua asa é muito rasa?

Foto: Haruo Ohara

armadilha
o aço não é suave: translúcida,
a vidraça despedaça o
vôo rápido do pássaro incauto

fatalidade
de repente, a pedra – e a asa não
terá mais
passagem

infantil festim cruel
o pássaro (presa) jaz a-
pedrejado
aos pés solenes

poetave
eu, antes adaga, agora a-
ve para que onde houver fronteira
haja asa

poetave II
passo a catástrofe da passagem
de um a outro instante me indagando:
“derivo de que ave?”


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um olhar na escuridão

Ontem, descobri um dos crimes mais assombrosos. Há um método rude para que o sabiá cante mais: furam-lhe os olhos. Aí, na triste e escura solidão de sua vida, o pássaro lapida e rumina sua partitura inata, a aditiva, e passa a cantar o tempo todo, mais e mais bonito.

Abaixo, eis o depoimento de uma avezinha pungida.


jazz laranjeiro

tudo belo aos olhos de
doce-de-flor-de-laranjeira

n` desjejum não m`alenta
geléia de borboletas

: me álacre era o céu-sol uma
distância de vôo percorrível

ora perambulo em passos-saltos
cúbicos: me tumula me berça
demolição de algazarra de
ciranda incinerada

me queimam me põem
estrepe arame nos olhos

ah há
quem me unte os olhos com bento cuspe?

por via escuríssima meu canto
sai labiríntico rude mas mais belo

: o céu-sol me
foi desaceso
– não me destila o sentir noite ou dia –

canto-peço-rezo
para alguém me devolvê-lo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Instante de confluência



fúrias boas

seu olhar me ronda
animala, mas, flor,
me benta, me pétala

erige em mim canto e febre

amor macio, sem arame,

geme instrumental
e deflagra romãs, açucenas

dança doçuras convulsas

me rio tão maciço macho mas
inda o menino sempre
sem um nunca epitáfio

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Peço-vos licença para expor meu canto


cantilena “madredeus” para carolina amor meu

resvalo de fronteiras manhã
mais noite em festa inédita

invés de coração de ave-
pedra como o que eu
tinha dentro dentro tinhas
helianto já bastante cata-vento

ora (de)cifro o idioma das febres
te cicatrizo vã donzelice
: te ponho alarido algazarra num vãozinho
de gemidos silêncios incomestíveis

vieste – adocicar roseiras tomar
posse dos relentos – ser a plena
moça-alento foto (campo de flores do campo
lavradas alma adentro)

e o lá-lá-lá lá-lá-lá-lá
do balé leve dos matinais desejos de
– dia álacre ou árido dia –
transpor penhascos e poentes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Transitando cego pelo Éden

interferência no tráfego

me moem esses urbanos meninos
perambulantes herdeiros
de candelárias chacinas

com a ferida que sai
do assassino neles
(latrocida besuntado com cola,
benzido com incenso de crack)

– me dói a cor negra dos dentes
dessas rebolantes pré-adolescentes –
outdoor ambulante, propaganda para
padres pastores pais-de-família
(insuspeitos pedófilos)

– me enoja, em mim, o gesto
cada vez mais requerido
de ligar o ar-condicionado
ao parar o carro com os vidros erguidos
nos semáforos fechados

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sem querer ser reacionário, o corpo gasta-se à velocidade de uma vida.

Rachel, 21 anos, encontrada pelos pais, morta por overdose.

Grilo

I

Cantar
escuridões infecundas.
Cantar-se. Roer
a treva
íntima. Roer-se
impiedosamente.

II

Árido, se rói
incisivamente.
Não cintila:
elide alheias
epifa-
nias.

III

O canto não é profundo
e o nome não é maduro:

tenta cavar fuga
arando a matéria
para fora do vidro
da vida escura
que o encerra.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Entrelaces e desconfluências


canção do desvelamento

hoje que me
(des)dê
(des)poesia
: escavarei na palavra
sua rara alegria

no espelho é longínquo
o ente já quase nunca
resmungando distâncias
no fundo da retina
tingida de ferrugem

não sei das faces
se eram estátuas
se derivavam
de alguma ave
: máscaras sempre
burlam a verdade

e a-
pesar do
escuro que
se cumpre em mim

tateio
na cilada do espelho
ainda alguma
estranheza

e danço mínimo
meu gesto possível
entoado
por um gemido
entremeio à alegria

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pedra ilapidável


Turmalina

desgastar o azul até
encravar a
pedra (turmalina)
no metal

cinza

de-
pois ficar
à espreita
à espera
de que a cor
caiba ao teor
da pele

que uma
nudez
aflore

que uma
noite
cante

domingo, 17 de maio de 2009

Um pássaro contra a vidraça

Relâmpago

Racha
a treva celeste
esti
lha
ça elétrico o céu
prestes a desabar-se

revela a
face-fantasma
da menina insone
contemplando
a cidade da vidraça.

Devoto de uma foto

Éden

Descalçadas as vestes
com a pele gritas
um dialeto de jasmim

depois fica o aroma
querendo destroçar relógios
desdilatar distâncias
dessas que deflagram abismos

ferrugem não-potável
dessas que maceram espelhos

sob o encanto,
uma estranheza estremece

um quase-espasmo-
quase-susto sepultaria
os pianos mais áridos

pois memória,
repelente ou apetecível:
sempre alarido
extraviado da sinfonia
de incandescentes lavrados
desertos íntimos

te me ofertas
qual fruta acredoce
deste pomar
dócil-bruto

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Uma lufada de incentivo para minha poesia

No inicio do ano, a poeta Micheliny Verunschk, de cuja poesia sou devoto confesso, num ato de extrema generosidade, publicou no Portal de Literatura e Arte CRONÓPIOS um texto sobre minha poesia. Como não sei nada de divulgação, segue abaixo o endereço do texto para quem quiser conferir. Ainda sobre a poeta Micheliny, a mesma edita o blog http://www.ovelhapop.blogspot.com/ e já escreveu dois livro: Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada, ambos de 2003 (Editora Landy).

Endereço do texto no Cronópios:
http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3743

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O deleite


Antecipação da manhã

A TV a
inda ligada a
lumbra
tua pele nua na cama
e se te levantas tua
nu
dez adoça
a severidade do quarto

deixa vertigem na an
tecipação da manhã

teu perfume feliz feito
de noite enfim despida
colide com a mobília

apesar de já se ouvir lá fora
a velocidade dos veículos
que estragam a aurora

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um afago entre pele e alma


Canto

I

Se te toco onde
seja úmido o segredo

cantarolas
orquídeas
azaléias

com
a face
a fome
a fonte

à completa
espreita

II

Deflagro meu tato
todo em ti.
Fico fácil – até fútil
(animal eriçado
à mercê de tua busca)

quarta-feira, 16 de julho de 2008


Homenagem do Cão para sua Dona Morta

Na casa toda varrida de câncer,
o gemido (o uivo): o último
arpejo,
antes do definitivo
si
lêncio:
eu,
também,
morro em reverência.

(Poema do livro inédito "Quebrantos, relances e abismos ao relento")