Imagem: Hermin Abramovitch
da rapina
telemarketing
moça se soubesses
que me masturbo enquanto te tolero
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experimental
pássaros e borboletas já são clichês
é tempo de acasalar
águas-vivas libélulas e ornitorrincos
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vidas – sedentas – fossilizadas
fósseis – nostálgicos – retrógrados
retrocessos – permanentes – progressivos
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meu ânus virgem/minha fé promíscua
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eu deveria te comover mas
meu diabo ainda é um ovo de anjo encruado
esta lua é um antiácido
e este conhaque falsificado
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último espécime
lobo-guará no radiador
ararinha-azul no para-brisa
meu mustang meia cinco
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a solidão é um inferno particular
o inferno é uma solidão compartilhada
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as chuvas que as nuvens prenhes prometem
e abortam longe da sede (da gente)
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ainda hei de inventar
um relógio anti-horário
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uma febre tão intensa que acenda uma lâmpada
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poema mudo
desde que os silêncios sejam bem metrificados
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despaisagens
os copos de plástico na praia
o leite azedando na pia
a mosca encravada no resto de café na xícara
as mãos macias do obstetra abortífero
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barroco
teus olhos me televisionam o mar
meu olhar te lamparina
na seminoite
o odor morno de penumbra despida
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puro como um cântico depois do gozo
alegre como um gozo depois de outro
pleno como cantar e gozar a um só tempo
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neurótico como um boi depois da castração
pianinho como um cão depois da surra