sexta-feira, 25 de outubro de 2013

um elemento da minha alcateia


agreste

o mar nunca vi
mais belo deus

meu peito estava sem
sentinelas mas

– não te preocupes – não
doeu introvertê-lo

fechei meus (de espanto)
olhos porque deus
– até então – nunca
me havia sido
tanto

ao longe – na
areia? em
mim (avesso)? – ouvia-se
o rosnar da festa
– embora para a sede
(acumulada em décadas)
o mar me fosse
– pouco? – estéril

(wilson torres nanini
alcateia: Editora Patuá, 2013)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

sabotar o automuro




-livre
servir napalm no jantar
agir como uma
planta que não floresce um
panda que não procria um
anjo da guarda
que deu o fora
antes da queda-

sexta-feira, 3 de maio de 2013

fauna de missa, fauna de feira-livre



a invenção do céu

dente de ouro cariado
me decreta menino-rindo um mendigo
“redemunho é a palavra mais 
bonita que (in)existe”
paisagem de presépio
hora dos desquebrantos
me receita o bento em suas
defeituosas palavras
me acena restos amputados a lepra
até ser ele todo por dentro
rosário roseira relógio a corda
vitrola viola cata-vento


wilson torres nanini

quinta-feira, 7 de março de 2013

A vida dura o quanto dura/caminha com sede/até um copo d'água





Foto: Marília Garcia





asilo

ela cerne de cicuta
velhinha vestida de alarido
ciranda presépio e disparates
rumina rindo-se uma
cantilena hieroglífica

em nós dói ela
ninar perene boneca-
de-pano simulacro de seu
bebê fenecido de infância

em comércio de afetos decrépitos
afagam (roem) um velho suas relíquias
(relógio a corda rádio a pilha)
as fotografias de seus entes
(coágulos fantasmas) já sem nome

e uma solidão que
nunca foi mansa

(wilson torres nanini)

domingo, 13 de janeiro de 2013

Meu livro alcateia em pré-vnda



Queridos amigos e amigas,

após um longo e tenebroso inverno, finalmente meu livro “alcateia” será lançado. O lançamento será dia 21/02/2013, no Cine Teatro São José, em Botelhos/MG.

Para aqueles (as) que não puderem comparecer, o livro também poderá ser adquirido através do site da Editora Patuá (http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=150), onde se encontra em pré-venda.

Abraços!

sábado, 10 de novembro de 2012

na (a)horta da leoa








anestésico

canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva

“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta

beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis

enquanto isso
você me
nina

você me
conta
de fadas


(wilson torres nanini)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

penumbra rosa/cerâmica inepta do canto




cor de rosa

te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho

doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)

busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos

: a vida de
volvida do
fóssil

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"por ora só posso/pensar hieróglifos"



fóssil

nos vamos deixamos os
restos mortais
de um lugar

cadela com lepra
nos fareja a fuga

árdua asa lambe
no ar a chaga
do apedrejado voo

: ainda lateja a
língua extinta

escrever então só para
evitar
escaras na
linguagem –

desmetrificar a sede
abrasiva – ir-se
por seco leito
(bem cerzida cicatriz
de
subsolado rio)

sábado, 21 de julho de 2012

menininhos malcriados (sequenciando)

imagem: Jereme Decalf

(série sabotagens)

molestador
amorarame
caricia de a
belha na virilha
mas – ah! – o
febril tato incauto
do falo encontra uma
taturana-bezerra
na vagina

#

bullying

1. frivolidade
vestido de fezes frescas
atravessar ferocinica
mente valsa de debutantes

2. patricinha
cuspir limão no exato
instante em que o
hímen for rompido

#

intoxicação alimentar
a fila que se forma
de alienados leigos
e a bactéria letal no trigo
das ora
consagradas hóstias

#

riso lascivo de
(alcateia de)
pedófilos à solta
no berçário repleto
– porém “não o sabias?”
a ninadora ri-se
vingativa
“eis o berçário
de bebês-bomba”

sexta-feira, 20 de julho de 2012

pudim de leite em pétalas

imagem: Igor Mudrov



dócil

penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança

seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)

ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem

penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Poet(os)(as) insípid(os)(as)

Imagem: Herr Buchta

travesti

o ser
centauro singelo
em riste – o perfume? o falo? – a estranha
ternura: uivo brando de camélias
cântico de sereia: júbilo atípico
singeleza de navalha

o híbrido ata-se a uma
catástrofe mais abrangente

à luz do dia
porque, noturna, toda
nudez é tão
clichê

acoplar seios (signos): ser
um quase
enigma – amputar-se não não não pois
o fantasma os desejos mutilados lhe
assombrariam
com sussurruídos esculpidos
em línguas extintas

é na fratura canhota que se tece
um destro gesto liberal, obsceno

: alguns poetas prescindem de leitura: se
fartam, onanísmicos

: algumas poetas não procuram vênia: lhes
basta febre via cunilingus

abolir, então, as carícias: ir
direto ao fosso oblíquo onde
o nome se enviesa
e a honra se meretriza

ir expor ao público
as tripas de que se fia
a democracia

quinta-feira, 29 de março de 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Menininhos malcriados

Imagem: Hermin Abramovitch

 
da rapina
 
telemarketing
moça se soubesses
que me masturbo enquanto te tolero

#

experimental
pássaros e borboletas já são clichês
é tempo de acasalar
águas-vivas libélulas e ornitorrincos

#

vidas – sedentas – fossilizadas
fósseis – nostálgicos – retrógrados
retrocessos – permanentes – progressivos

#

meu ânus virgem/minha fé promíscua

#

eu deveria te comover mas
meu diabo ainda é um ovo de anjo encruado
esta lua é um antiácido
e este conhaque falsificado

#

último espécime
lobo-guará no radiador
ararinha-azul no para-brisa
meu mustang meia cinco

#

a solidão é um inferno particular
o inferno é uma solidão compartilhada

#

as chuvas que as nuvens prenhes prometem
e abortam longe da sede (da gente)

#

ainda hei de inventar
um relógio anti-horário

#

uma febre tão intensa que acenda uma lâmpada

#

poema mudo
desde que os silêncios sejam bem metrificados

#

despaisagens
os copos de plástico na praia
o leite azedando na pia
a mosca encravada no resto de café na xícara
as mãos macias do obstetra abortífero

#

barroco
teus olhos me televisionam o mar
meu olhar te lamparina
na seminoite
o odor morno de penumbra despida

#

puro como um cântico depois do gozo
alegre como um gozo depois de outro
pleno como cantar e gozar a um só tempo

#

neurótico como um boi depois da castração
pianinho como um cão depois da surra

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Entre a brisa e o redemunho


Ninguém nunca soube sua idade, mas quando os primeiros habitantes chegaram aqui, aqui ela já estava.
Fugia do asilo sempre, sempre.
Vizinha da gente, ela entrava de assalto em nossa casa – achasse a porta destrancada.
Ninava, perene, uma boneca de pano. Especula-se que era um simulacro de sua filhinha falecida de infância.
Sua roupa de chita multiflorida lhe dava um aspecto de personagem de presépio maluco, de folia de reis extraviada do ofício.
A gente comentava que, invés de alma, ela tinha ventania: às vezes, uma ciranda alegre; outras, um circo demoníaco.
Balbuciava-nos declarações de amor incondicional. E como ríamos porque não entendíamos seu idioma de alarido, machucada profunda, grunhia-nos impropérios ininteligíveis. Depois, se ria, banguelamente.
Certas ocasiões, batia à porta, mesmo encontrando-a aberta. Trazia no cenho uma doçura aureolar de quem visita uma viúva recente. Acomodava sua cabecinha no peito da gente e nos supra-olhava sorrindo, afetuosíssima. E, então, chorava, mansinha. Um chorinho garoado, quase relento. Talvez, por seu interno deserto vasto, seus rios intransponíveis.
Após ir-se embora, ou ser reconduzida ao asilo, borboletas multicores saiam de debaixo dos móveis, como se tivessem se gestando lá há séculos. E objetos perdidos, procurados pela casa há semanas, eram imediatamente encontrados nos lugares mais óbvios.

domingo, 6 de novembro de 2011

Mundo animal

video
poema do boi morto sob aplausos

à beira do riacho urubus
(afluentes do relógio) pastam
boi pré-morto
boi pré-morto ruge “serei
só um deus-de-carne desperdiçado?”

sabes – alguém
sabe? – quanto de viola
(deslumbre) e espin
garda habita
os intestinos de um mosquito?

fosse de só-seda... mas tão lâmina,
essa poesia me (nos) requer estômago

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Drummond me desrimbaudiou

cda (reinterpretado)

essa pedra no meio do caminho
essa pedra no meio do caminho
se não fosse pela fadiga
se não fosse pela fadiga
eu chegaria ao outro lado dela
eu chegaria ao outro lado dela
através de um túnel
através de um túnel
esculpido
(inventado)
com a minha própria língua

Para Mirze Souza

Fotografia: Kelvin Carter

social

às vezes, bem no meio da meia-
noite doce e bárbara do orgasmo,
pousa, sem cheiro, sem canto,
uma ave negra no âmago
: atravessa-me o cerne uma
lembrança canhota,
que me põe poeta
e, então, me ocupo
de toda ausência e dor do mundo

às vezes, em meio à meia-
febre álacre e explosiva da festa
– vaidade das vaidades –
fico sem nudez, sem riso,
e um silêncio pétreo feito de
cânticos endurecidos me grita
áfricas e nordestes,
orfanatos e asilos
: uma vontade como a de uma
serra leoa de devorar os eua
e a de uma capelinha de roça
de engolir catedrais vaticanas

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para Nydia Bonetti

Sompob Sasimit

viola

com sotaque ribanceiro desde

as pontas dos dedos rumino

um céu estrelado alma adentro


sanfona

valso inebrio-me a alma

de repente

vem habitar sobre a pele


aleluia

ao pôr-da-tarde cheiro de chuva

vestida para a eucaristia a menina

caça aladas tanajuras


goiabeira

vidraça quebrada o estilingue preso

num galho e o cheiro em fuga são

indícios de um assalto


infância (fim da)

da mão precária

o vento desata o

catavento que (devagar) (rápido) se evade


álbum

a sépia salienta

a nódoa (lembrança dor

ou delícia) que lateja


função

tal um catavento afere alegre o labor do vento

a poesia

afere os meios-instantes os meios-gestos


poeta (razão de ser)

pasto espinhaços

rumino cernes desidratados talvez

uma flor inefável nasça


poetave II

não me dói não ser pássaro

contanto que o céu esteja sempre rente

ao solo quente em que semeio meus passos


adão

tão

tênue sutil

sopro (por dentro do bruto barro)


eva

a carne é mera

via

para que o desejo voe


papel de arroz

inscrita na pedra a nudez

ah a nudez plena inscrita até

na pele (do avesso)


revoada

não deixa

rastros no céu poente o

canto migratório


descalço

haverá pétalas? por enquanto

esse

caminho de pedras


retirante

ambulante textura árida tatuagem de

árduo sol nos olhos

ele um náufrago ao avesso


flores ásperas

nas mãos da noiva

a espera (estéril)

sangra


janela

aberta

a cortina ao vento aprende a ter

a leveza de um riacho com asas


matéria

basta um resvalo

da cortina embebida em vento

para que o vaso não mais seja


travessia

ficar devagar coisa tal

cantiga entoada

por folha seca à brisa


renovação

folha caída no riacho

descubro um súbito destino

de barco para a travessia de formigas

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

vidas em singeleza II

O anjo

Perdeu-se de seu bando numa revoada vespertina. Então, perambulou ocioso por campos, revivendo carcaças, desviando enchentes dos vilarejos, curando a peste do gado e a febre da lavoura, até chegar à cidade. Entretato, só as crianças ainda sem batismo o viam. E ele, em dialeto de bicho de pelúcia, lhes falava de coisas que ainda não tinham nome. Passou a habitar empoleirado no ombro de uma menina cega. Quando ninguém estava olhando, o anjo interrompia sua cegueira, e a menininha, disfarçadamente deslumbrada, podia ver até através das pessoas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Oficina para purificar sedes artesianas

Robert e Shana Parkeharrison

ceramista

para Assis Freitas


arquitetura de fraturas – mãos

brutas modulam um caos conciso

: sabem borboletamente

metrificar silên

cios desentrelinhar

afetos apaziguar

o cio corrosivo

de um escafandro no deserto


me pensam com moringa me penso

com cuspe: coo

o brejo até ao ponto de potável – mas

minha água ainda é crua

e a gasto com tanta inútil

sede


boi poeta polícia só

sei ser – sei ser? –

pasto para rapina

chão para procissão


e me esmerilho me rio tão rio tal o rio

cujo barro sonha ser nunca ruínas

se me de repente estendes

uma dessas tuas

canecas de café-com-(de)leite




quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Um buquê, uma árvore florida para vós


porque tens
hálito de brejo e eu tenho o
paladar ribanceiro,
damo-nos bem certos
de o querer nos ser panaceia

: amor é pomar plantado
à beira do desfiladeiro

porque sinto sincera pena
de que tu temas os ipês
cuja fertilidade
sabota tuas narinas,
tirei esta foto inócua deles para ti

porque entoamos cânticos
de febres pretéritas
e de fomes sem cura

aferimos nosso poder
de resistir à dor
e de mergulhar na delícia

e nossa ventura de cunhar frases de efeito
: teu olhar me lamparina
: “teu ofego morno me deixa quebradiça”

: amor é sede e moringa
a um só tempo

: amor é o tempo imperecível