sábado, 31 de outubro de 2009

Meu peito é um vidrinho de esmalte cheio de elefantes...


Tempo
Diante de uma foto antiga
um casal de velhos casados
recalcula o infinito

Identidade
Transgredir a face,
o nome, os signos:
existir nos basta?

Perecimento
À beira do asfalto,
lobo-guará atropelado.
Silencioso nada.

Fantasma
Fui dormir carne (dor
e delícia) acordei
névoa (noite onírica).

Meditação
Vira riacho minha superfície:
o infinito pousa dócil em meu ser
pesando o peso de um selo.

Reencarnação
Cai o copo. Quebra-se.
Os cacos agora
querem ser xícara.

Deslimiar
Espelho estilhaçado
enfim minha face
transpõe o aço.

Borboletas
Ah, borboletas!
Agora: borboletas longe dos
pés cruéis dos homens...



Finalmente, após um ano estafante, estou entrando de férias! Volto em dezembro, se Deus quiser, com a bateria recarregada! Um abraço a todos!!!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O espontâneo despojamento


Boi

I
Apenas a metafísica
de nossos mitos
explica-nos

– enquanto o boi ergue a cauda
e produz matéria

II
Solene,
com mãos transfiguradas,
afago na
(dele) face minha hoje
escassa identidade.

III
No meio-dia sem álibi...
Na meia-noite sem alento...
O boi (peso, pêlo e poesia
isenta) se indifere pois
intui que plenitude é
– rente ao prazer manufaturado –
deitar-se entre flores
na relva úmida
e lamber apenas
as próprias narinas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Suave é a noite. Mas, antes: as penumbras mornas

Raquel Aparicio
Sonhos de uma tarde de verão

a tarde toda era uma coisa
febril e alada
em cortinas à brisa
esboço de ave sempre em vôo

na cozinha o verão zumbia
na mosca encravada no resto
preto de café na xícara

– um gesto de morte
em fogo brando
no odor das frutas
na fruteira há semanas

a noiva testava
alvíssima indumentária
de consagrar a nudez a ser
um dia ofertada

no outro quarto
a irmã da noiva escavava
cataclismos e signos
pouco metafísicos
na autopelúcia semivirgem

os desejos de ciranda
em areias movediças

armadilha

agora desejos já fósseis
ave irascível de volta à estátua
a cicatriz do segredo
num poema em silêncio

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sem querer ser reacionário, o corpo gasta-se à velocidade de uma vida.

Rachel, 21 anos, encontrada pelos pais, morta por overdose.

Grilo

I

Cantar
escuridões infecundas.
Cantar-se. Roer
a treva
íntima. Roer-se
impiedosamente.

II

Árido, se rói
incisivamente.
Não cintila:
elide alheias
epifa-
nias.

III

O canto não é profundo
e o nome não é maduro:

tenta cavar fuga
arando a matéria
para fora do vidro
da vida escura
que o encerra.

domingo, 18 de outubro de 2009

Besouros são sementes de rinocerontes?



Besouros

Aladas quase
cegas semi-
(es)feras
negras

chovem se acumulam
à penumbra pública

(sem que as lâmpadas
dos postes que os
alumbram de-
batendo-se em câmera

len-
ta

esforçados virados saibam
o que pensam os transeuntes
que passam por
sobre
e os esmagam
indiferentes)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O retorno à essência?



Natureza Morta

No fundo da xícara
(resto de café,
vestígio de saliva),
leio meu futuro.

Depois, na xícara
repelida sobre
a pia da cozinha,

uma mosca imprudente
selará o seu destino.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Olhos de vidro


O poeta cego e seu farol

Tudo o que fiz foi
tentar roer a noite,
ruir a sombra,
regar com relento
meus assoreados (des)desejos
(des)espelhos
de areia movediça.

Mas a noite foi irônica:
a lamparina mais potente
se me deu só em penumbra,

– como uma água póstuma à sede,
a poesia me entregou
sua moringa ressequida,
seu cáustico solo aceso,

e tive que escavar profundamente
até seu subcutâneo
rio potável –

e essas alinhavadas
pausas na face:
cicatrizes bem aferidas
pelas facas da sina,

sem qualquer anestésico,
sem ao menos o poema ter-me
indenizado com um cosmético.


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Carta de Botelhos/MG para Lavras/MG, ano 2002


Carta (Para Carol)
Me chega a caixa
hieroglífica contendo
saudade
ameaças de castração
de suicídio e de morte,
caso eu não volte logo

À notícia dos entes mortos,
me quer contar um segredo
bem mulherzinha
(artigos de perfumaria)

Uma nudez oferta
desfila nas entrelinhas
nudez
grácil e gratuita
como um móbile de alegria

Um circo de si
recanto e feitiço:
em cada decote
entrevisto
quer ser a brisa,
a febre e os infernos
que me habitam,
: quer me ser uma
bailarina (uma carícia) que
me alente

E eu quero todos
os signos ígneos
de seus sins suaves

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Entrelaces e desconfluências


canção do desvelamento

hoje que me
(des)dê
(des)poesia
: escavarei na palavra
sua rara alegria

no espelho é longínquo
o ente já quase nunca
resmungando distâncias
no fundo da retina
tingida de ferrugem

não sei das faces
se eram estátuas
se derivavam
de alguma ave
: máscaras sempre
burlam a verdade

e a-
pesar do
escuro que
se cumpre em mim

tateio
na cilada do espelho
ainda alguma
estranheza

e danço mínimo
meu gesto possível
entoado
por um gemido
entremeio à alegria

sábado, 3 de outubro de 2009

Poemínimos


1) Concha

Sobre o brilho
esnobe da pérola, me fecho
em treva autofágica.


2) Artefato

Desvelado,
o perfume
perfura a cegueira.


3) Deserto

Ou a distância impossível:
a água parca
ou a sede imperecível.


4)
À porta da igreja,
dois leprosos
cobrando ingressos.


5)
Muro alto
de repente um pássaro
em vôo raso.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Corações de paralelepípedos


bilhetinho amassado

escrevo-te um poema
em cifras,
um perfume hieróglifo
um canto (silente)
em código de barras,

pois a promessa de amorafeto
resultou inútil:

a alegria eterna era
só um erro tipográfico

sábado, 30 de maio de 2009

O início de meu desquebranto

Instituições

Depois que nasci, morri
uma vida a cada dia.

Minha mãe nasceu pra ser só
minha, mas logo
meu irmão se atreveu a nasce.

Depois que cresci,
catei o que me cabia
e, antipródigo, fiquei bêbado
de dizer adeus a meu pai.

Deus – ou o diabo – perguntou-me
se minha sina seria sempre a tudo
dizer um “sim” supremo:

nunca mais fui à missa.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pedra ilapidável


Turmalina

desgastar o azul até
encravar a
pedra (turmalina)
no metal

cinza

de-
pois ficar
à espreita
à espera
de que a cor
caiba ao teor
da pele

que uma
nudez
aflore

que uma
noite
cante

domingo, 17 de maio de 2009

Um pássaro contra a vidraça

Relâmpago

Racha
a treva celeste
esti
lha
ça elétrico o céu
prestes a desabar-se

revela a
face-fantasma
da menina insone
contemplando
a cidade da vidraça.

Devoto de uma foto

Éden

Descalçadas as vestes
com a pele gritas
um dialeto de jasmim

depois fica o aroma
querendo destroçar relógios
desdilatar distâncias
dessas que deflagram abismos

ferrugem não-potável
dessas que maceram espelhos

sob o encanto,
uma estranheza estremece

um quase-espasmo-
quase-susto sepultaria
os pianos mais áridos

pois memória,
repelente ou apetecível:
sempre alarido
extraviado da sinfonia
de incandescentes lavrados
desertos íntimos

te me ofertas
qual fruta acredoce
deste pomar
dócil-bruto

sábado, 4 de abril de 2009

Um perfume dentro do corpo, uma alma fora da pele

Noiva

A estátua se faz
ave; a nudez alva
se faz noite.


Menina-moça

Já corça, de água ou louça
alarme dorme em fruto
a secar da poupa para fora.

Noiva II

Alvíssima indumentária de
consagrar a nudez que,
em pouco, será ofertada.




Viagem

Na cama à espreita do tato
acesso à carne em seda
não há paragem.



Ideograma

Quebraste o frasco
de perfume, agora
usas só cacos de vidro.


Carta

Perfumada, longínqua, uma
nudez desfila oferta,
gratuita nas entrelinhas.


Cama

O labor da noite febril
à espera da
brutalidade solene.







quinta-feira, 2 de abril de 2009

A liberdade é geométrica?

Aquário

Signo colorido da
geometria íntima da
gaiola vítrea

em toda a sua
margem
cúbica

enquanto esbarra
em oceano
restrito

parece que me
contempla (o peixe)
a mim (seu

incompetente
salvador
deslumbrado) –

ondula mínima
mente a água:
é dolorido

todo
universo
finito

sábado, 21 de março de 2009

O ofício de se extrair de si

Poetave

Pois não basta dar
via
extravio
exit
às catástrofes mínimas do dia

se o espelho aturde a face
embora o gesto hieróglifo
não a-
bata
no poeta de ego acrobático
aquele transtorno dentro de si
volúvel quase ave
para que onde houver fronteira
haja asa
afã mesmo:
ciência e teofebre acesas dentro
para ouvir a sintaxe gauche
de seus gestos

numa solene transgressão –
permutação – e-
pidérmica –

ratificando o vento espontâneo
com cimento

tentando achar cosméticos
entre distúrbios

tal um deus lembrado
das coisas ainda não-inventadas
passando tempos doídos
tentando ficar lírico
o mais ideogrâmico possível

tal uma pedra que indaga se acaso
uma flor entre flores
é mais (menos) flor do que
uma flor entre pedras

ele – antes adaga
ora passarinho
(entidade bélica
e alada

debatendo-se contra
fechadas
janelas) –
passa a catástrofe da passagem
de um a outro meio-instante se indagando:

“de que autocrime me redimo?”

“derivo de que a-
ve?”

sexta-feira, 13 de março de 2009

A flor artificial

Beija-flor

veio, visita em asas
de seda
rápida

veio, impôs
na casa
um hiato

veio, beijou a
fertilidade em flores artificiais
(de plástico)

veio, des
montou dis
tâncias

veio, ques
tionou
certezas

veio, célere – célere, foi-se:
a casa voltou a ser só
rotina

sábado, 7 de março de 2009

Benzimento puído

Sá Patrumília

eu meu irmão nossa mãe me nos
levava pela mão à tarde
de infância caminho de coisas
ainda inonimadas a tarde

ardia muito inevitável uma velha
lá muito benévola me nos benzia muito
grave mastigava na língua sussurros
o trânsito inumano princípio

de tecitura de milagres
eu meu irmão desinventávamos
o diabo ficávamos com a parte
de dentro da alma cheirando

à hortelã à água um susto alvo
de angelismo a demolir nesgas
de sóis estagnados eu meu irmão lá fora
dentro uma rapina a me nos circunsobrevoar

auréola negra sempre à espreita
eu meu irmão lá fora à tarde
assistíamos surpresos à briga
de vespa africana com aranha caranguejeira

eu meu irmão minha mãe na
rara alegria da pobreza me nos benzia
a fome os arames enferrujados dos marimbondos
me nos ferroavam os olhos da infância

dentro graves muito graves ouvíamos
a voz de barro dos santos e do pó
puído das cores dos móveis
mais um retrato de se chorar

defuntos em preto-e-branco ó
quanta ancestralidade na minha nossa
infância mútua febres de sóis que
nunca se exaurem de se porem


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O real e seu além




Notícias

Plúmbeas cifras num agressivo
papel:
todo feixe de transmissão
de beijos, afagos rudes.

1. SAÚDE

“Pássaro de amputadas asas.
Podia-se um transplante de essências,
mas, sentinelas austeras
de suas pétalas, as flores
compatíveis puderam-lhe
ter negado.”

2. COTIDIANO (MANCHETES CÉLERES)

“Espelhos bem partidos,
enfim: reflexos revogados,
mas de rostos que
transpõem o aço.”

“Homicídio das mãos-dadas.
Introverteu-se o amor
autodeclarado infinito
depois que cada um atingiu um
orgasmo bem restrito.”

“Persistem o câncer, o agreste,
a orfandade, a guerra etc,
apesar de todas as campanhas
de protestos em contrário.”

“Ricos barcos deram seus náufragos:
a sede de se tomar oceanos todos
acabou por transbordar ocultos
desejos mortos.”

3.ESPORTES

“Na 6ª rodada, jogador de
roleta-russa saiu incólume
de um torneio com revólver
de sete tiros.”

4.ECONOMIA

“Administrar ou conquistar riquezas,
qual a maior proeza?”

“Uma fala entrefechada acaso se equivale
a um silêncio entreaberto?”

5.POLÍTICA

“Meu espelho é
meu
limiar:
impossível não desejar
roer raízes,
saturar os automuros.
Impossível desdesejar
subverter tudo
o que impede
a poesia.”

6. CLASSIFICADOS

“Troco destinos por acasos.”

“Vendo sexo higiênico,
acadêmico-poético
por R$0,50 de afagos.”

“Troco meios-silêncios de
palavras de afeto
por sedes imperecíveis
em desertos indeléveis.”

“Doo veículo eficiente
de se congestionar a liberdade.”

“Empresto veículo em perfeitas
condições sonoras
de se estragar a aurora.”

“Troco um tique-taque infinito
por uma calmaria imperecível.”

“Consigo converter chagas
em espasmos e descrever rotas para
labirintos íntimos.
Contrate meus serviços infindáveis
por apenas zil desdesertos
despoemáveis.”

7.CULTURA

“Alma encena hoje
os delimites do corpo.”

“Acrobata autodidata,
o espelho interpreta
PARA SEMPRE SEU AVESSO IDEALIZADO.”

“Espaço cultural apresenta:
TATUAGENS PICASSIANAS SUBCUTÂNEAS,
um contra-senso às sombras banksyanas
nas fachadas de prédios executivos sabotáveis.
O editor do blog comenta:
‘tornou-se impossível quebrar todos
os translúcidos vidros
(armadilhas infalíveis aos
pássaros bélicos em voo incauto,
depois que Micheliny Verunshk
desrimbaudiou meu eu mais íntimo,
no que me tornei, em mim mesmo,
um eu-oculto no eu-oblíquo.’”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Suave é a noite"


Donzelice ( Ou a Entrega da noiva em noite de núpcias)

I
A menina de alvíssimas veste tênues
aguarda com febre e fome terçãs
a catástrofe da carne.
Embaixo do vestido, vão-se
os cheiros divinos habitados
em ventanias demoníacas.

II
Bênçãos em chás alvos,
alvíssimos, mesclados
com anjos e demônios.
Dos olhos brancos,
translúcidos,
mais nenhum enigma.

Uma lufada de incentivo para minha poesia

No inicio do ano, a poeta Micheliny Verunschk, de cuja poesia sou devoto confesso, num ato de extrema generosidade, publicou no Portal de Literatura e Arte CRONÓPIOS um texto sobre minha poesia. Como não sei nada de divulgação, segue abaixo o endereço do texto para quem quiser conferir. Ainda sobre a poeta Micheliny, a mesma edita o blog http://www.ovelhapop.blogspot.com/ e já escreveu dois livro: Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto e O Observador e o Nada, ambos de 2003 (Editora Landy).

Endereço do texto no Cronópios:
http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3743

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Para se desautomurar



Em estado bravio

Desautorizo o
automuro
a asa em si a
tada à premissa do raso

semeio satélites reluzentes
em noite interna
de pura treva

eu, enfim pássaro –
mas só se, ao
desenraizar raízes
de ruínas,
desautomatizo o o

cio
de sim supremo

despoeto guerras em mim inoculadas

desautomuro-me

: (re)torno-me
extravio de rio
(a sede sanada)
deslimiar de
escuro inato

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Desparasitários


Orquídea

Floresce plena
mas – perecível –
dura um enigma.

Floresce lúdica
mas – estéril –
desconstela abismos.

Floresce efêmera
mas – parasita –
aturde concretas raízes.

Floresce tênue
mas – narcísica –
prevalece sensualissimamente mítica.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O múltiplo íntimo







Espelho

I

A cegueira seria
uma fuga eficaz.
Mas aqui,
a face crua,
a palavra nua
não têm álibi.

II

Meu rosto dói
às vezes no aço
que o reflete sem alento

porém sei da matemática
de muitas máscaras.

III

O espelho nunca tem
perfume:

é sempre enigma
que punge.
IV
O espelho nunca reflete:
as asas, se tristes e incautas,
do pássaro se
des
pe
da
çam.

sábado, 24 de janeiro de 2009

O afeto pela crueldade

Homicida

I
Um grito de pólvora faz
um silêncio de sangue

mas na geometria urbana
da ânsia contemporânea
nos subterrâneos do relógio
(catando em calendários
mil mensagens utópicas) –
onde até o beijo dá-se monetário –
a lâmina é mais
minuciosa que o revólver.

II
Ente extraviado
do perfume
catando lumes e lírios
do que vem da gênese afetiva
hereditária (falha)
e fenece estéril
no or
gasmo.

Em mutação

Existência

Estar pedra
permanente,
embora
asa leve

Estar como acaso
a borboleta inefável
que ao tato se nos acontece
efêmera

Estar inseto incauto
náufrago em
gota de orvalho

Estar presença insi
nua
da
em espelho autofágico

: trama, cilada de
afeto e de homicídio
(a face carcomida pelos
labirintos adquiridos,

a face em pólen que
transita
do enigma ao
fenecer da planta)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O berço de quebrantos


Angelismo

Cheiro de aragem
o inseto submerso
numa gota de orvalho

Restos mínimos de chuva

Os pés rudes alastram
rastros (restos de estrada
barrenta) pela casa adentro

História dos longes
chega com a poeira
que os sapatos trazem

Missa de rádio

Abençoa duas velas,
um quadro velho de santo,
um copo d`água

– cachaça, terço, viola
um cantarolar de açucenas,
(cânticos de humildade)

A infância

Eufórica e impassível, contempla
briga de vespa africana
com aranha caranguejeira

Ouve a voz de barro dos santos
e do pó puído
das cores dos móveis

Fica com a parte interna da alma
cheirando à água na borda do corpo
(vendavais e hortelã macerada)

Um gosto de rosas (comidas na infância)
retorna à boca,
à acesa branda alma escassa

(feita do longínquo,
onde o boi,
com um berro, reza):

as narinas dilatadas para
farejar
o prazer de outras épocas

domingo, 18 de janeiro de 2009

Entre vampiro e santo


Oh, São José!(por sua esposa casta)

Perdoai-nos

o espelho
sem reflexo

o homicida (santo) em meu ventre
prestes

Perdoai-nos

o vôo
sem perícia

a nudez
sem delícia

O salto impactante

Ferrugem em viagem
o trem de ferro
aturde a paisagem.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Escavação sem êxito


Quem bate à porta?
Ninguém responde
à esmola de respostas.

A essência que nunca se esvai

Reencarnação

Cai o copo. Quebra-se.
Os cacos agora
querem ser xícara.

Vingança!!!


Ideograma

Quebraste o frasco
de perfume, agora usas
só cacos de vidro

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Noite, um perfume entre pele e alma

O Perfume da noite inoculada

Ah, a inépcia de amar
sendo poeta:
impunes, as musas mordem-me,
belas, o peito por dentro.

No sonho sem sono
no sono sem sonho
atravesso a noite que me atravessa.

Retomo o tempo em que, telúricas
e gratuitas, as primas e as vizinhas
– tão meninas-moças mas já corças
– posavam nuas para meus poemas mais eucarísticos.

Ora, a janela aberta enquadra
a luz que vaza
de extintas estrelas.

Insetos alados incautos beijam
a lâmpada recente-
mente desacesa

– ainda crestante

: a noite parada,
grave,
suspensa na insônia,

no meio do silêncio
negro, ouço
um avião

– ou seu fantasma

e a textura toda deste instante
se tornará para sempre
minha
segunda alma.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O deleite


Antecipação da manhã

A TV a
inda ligada a
lumbra
tua pele nua na cama
e se te levantas tua
nu
dez adoça
a severidade do quarto

deixa vertigem na an
tecipação da manhã

teu perfume feliz feito
de noite enfim despida
colide com a mobília

apesar de já se ouvir lá fora
a velocidade dos veículos
que estragam a aurora

Tributo aos vivos


Poema Para Adélia Prado

Estrelas!
no pomar celeste da boca conso-
lidá-las
foto-
grafar o avesso
da treva do ventre do ferro do trem de ferro
convertido em sentimento

o hieróglifos
numa brancura fecunda
de constelar escuros,
de transgredir o tempo

mas recito insonte-
mente: besouros são
sementes
de rinocerontes;

o lunático com um guarda-chuva,
a virgem com uma cabaça,
a beata com um calvário
atravessam a nado meu poema

num olor inato interno que mescla
bois borboletas
Deus: todos os
artefatos álacres
de escavar cosméticos
entre distúrbios

que concretos ou telúricos
noitinvadem-me às vezes.

Derivo de que ave?

Voave

Os poetas nunca souberam
pastorear as luas,
essas chagas lázaras
na treva-vácuo do infinito.

Pastores rudes das fomes plácidas,
inventaram o próprio lobo
para aplacar o rebanho inato,
simulando cosméticos onde florescem cadáveres.

Apenas lavram o trigo monetário
na floricultura de idílios,
de onde irrompe-se uma flama que se desfaz
em água – sela-se, silencia-se.

Do sumo, seiva, néctar miúdo,
resta nódoa no branco infinito
(papel-poema-moeda, fatigado exercício
de testar a textura do finito).

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um afago entre pele e alma


Canto

I

Se te toco onde
seja úmido o segredo

cantarolas
orquídeas
azaléias

com
a face
a fome
a fonte

à completa
espreita

II

Deflagro meu tato
todo em ti.
Fico fácil – até fútil
(animal eriçado
à mercê de tua busca)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O que acomete a pele acaso arranha a alma?


Taturana II

Cacto
ambulante

vai uma flor
florescida
em espinhos

comboio de único
ondulante lume

luminosa dama
acende sua égide
ao mínimo sinal
do tato de nosso
assalto displicente

nos salpica chagas
provisórias

e saímos (somos
todos rápidos?)
em busca de
algum sopro
que nos adormeça esta
febre

selvagem

sexta-feira, 25 de julho de 2008

De que é feita a nossa essência?


Xícara

I
Cai. Quebra-se.
O conteúdo
anula-se?

II
Repletos, misturam-se
a memória
e o instante agora.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O que é o homem na atualidade?


Homem

I
Deus se condena
a ser barro
apenas.

II
Do milagre (fecundo
óvulo) até a
catástrofe da carne.

III
Sopro divino dentro
do barro com um
perecível tique-taque inato.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Onde Deus habita na época contemporânea?




Deus

Entre o alfa
e o ômega, o âmago
e o @.

quarta-feira, 16 de julho de 2008


Homenagem do Cão para sua Dona Morta

Na casa toda varrida de câncer,
o gemido (o uivo): o último
arpejo,
antes do definitivo
si
lêncio:
eu,
também,
morro em reverência.

(Poema do livro inédito "Quebrantos, relances e abismos ao relento")